Onde as presenças florescem? - Azul e Rosa

Onde as presenças florescem?

Escrever sobre educação na pandemia é complexo, porque enquanto estamos vivendo e sentindo uma série de sentimentos internos, que muitas vezes entram em conflito, tentamos significar e dar nome a tudo isso, buscando uma explicação. Mas ao mesmo tempo, em um convite para escrever sobre educação, não consigo desviar do contexto que estou imersa. Compartilho uma breve reflexão, do meu ponto de vista como artista-educadora, em redes privadas de ensino, saindo da experiência de um ano letivo todo no remoto, para uma nova vivência: processos de ensino-aprendizagem no modelo híbrido/misto.

Todas as vezes que me deparo com algo novo, sou tomada por medo, inseguranças, uma negação de que as coisas podem dar certo. Mas com o tempo, vamos nos adaptando e as novidades deixam de ser novidades e desafios. Como quando compramos um celular novo. No começo é sempre difícil de mexer, mas depois, é como se sempre fosse aquele mesmo celular. Talvez por isso, ainda tenho muitos questionamentos sobre o ensino híbrido e poucas respostas. O que não me desanima, pois acredito que as perguntas nos movem e as respostas nos mobilizam, com pontos finais.

Durante a pandemia descobrimos que as escolas não são os prédios que abrigam os processos de ensino-aprendizagem, mas o encontro das pessoas que o fazem acontecer.  Por isso, no virtual mesmo com seus altos e baixos, deu certo! Precisamos nos encontrar para partilhar aquilo que já sabemos e vivemos, como aquilo que não sabemos ou sabemos pouco e podemos aprender mais.

O encontro pra mim, é a chave, a base, o mínimo para a educação acontecer. No virtual, nossos encontros sofreram com as ausências, de imagem, som, barulhos, olhares, reações, atenção, do corpo e da presença. É difícil focar a atenção com tantas outras coisas que nos chamam feito cantos de sereia em forma de carro do ovo, videogame pronto para ser jogado, a cama desarrumada que não deu tempo de arrumar antes da aula, a voz de alguém no fundo que está trabalhando de home office, o whatsapp no celular, as outras seis abas abertas no navegador… Parece que ninguém tá ali de verdade. E não estamos mesmo, é virtual.

Já no ensino híbrido, o cenário ganha outros componentes. Como a sala de aula física e parte dos estudantes presentes. Neste momento, sinto que não conseguimos desfrutar de um verdadeiro encontro. Depois de um ano sem nos vermos, não seria o mínimo poder nos olhar, perceber nossas mudanças, ouvir e compartilhar nossas histórias? Estar ali naquele encontro com nossa total atenção e presença, recuperando tudo aquilo que nos faltava?

O modo que vamos lidando, para que o conteúdo, as horas, as lógicas que já eram estabelecidas pré-pandemia não sejam prejudicados, vamos seguindo as aulas e estes encontros com atenções e presenças divididas entre mais da metade da turma no remoto, os estudantes presentes, os celulares, o computador, a tv que transmite o computador, os protocolos sanitários… Onde estarão as brechas, as frestas, as possibilidades, para um verdadeiro encontro acontecer? Conversando com queridos psicanalistas, digerindo uma longa conversa, tenho me contentado mais com encontros verdadeiros de poucos minutos, quando os consigo, hora no virtual, hora no espaço físico da escola, em um exercício de amenizar minhas frustrações.

Vamos ter que nos reinventar e adaptar, buscando soluções para estes novos desafios. Ainda estou achando confuso “este novo celular”, me frustrando e pensando que queria permanecer com o velho. Mas a presença, só pode se encontrar no presente. Espero encontrar caminhos leves onde a presença tenha possibilidade de florir.


Morgana Siqueira
Artista Educadora

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